JOSÉ SATURNINO PEREIRA DE MEDEIROS (1924/2014)
'Zé Rafael' era filho de João Raphael Dantas e Joana Petronilla de Araújo Medeiros. Neto pela linha paterna de Pedro Paulo Medeiros Dantas e Maria Benta de Albuquerque. Esposo de Maria Beatriz Pires Pereira, filha de Sérvulo Leodegário Pereira e Francisca Pires Galvão. Filhos do casal: ALTIVA DE MEDEIROS SILVA, nome de casada (1949-1970); ADALTIVA PEREIRA DE MEDEIROS (1950 - ); JURACI PEREIRA DE ARAÚJO; JOSÉ PEREIRA DE MEDEIROS; SÉRVULO PEREIRA DE MEDEIROS; SOCORRO PEREIRA DE MEDEIROS; ÉNEAS PEREIRA DE MEDEIROS; FRANCISCO PEREIRA DE MEDEIROS, VITAL PEREIRA DE MEDEIROS; MARIA DE LOURDES PEREIRA DE MEDEIROS.
Agenor Nunes Maria (1924-1997), filho de Antônio Inácio de Maria e Júlia Nunes de Maria, nasceu em São Vicente, Rio Grande do Norte. Sua trajetória política foi marcada por uma ascensão notável, partindo de vereador até o Senado Federal, onde se consolidou como uma das maiores forças políticas de sua região.
Sua carreira teve início com a eleição para vereador, cargo que ocupou de 1954 a 1958. Em 1960, demonstrou sua visão empreendedora ao fundar a Cooperativa dos Produtores de Algodão do Rio Grande do Norte. O avanço para a esfera estadual ocorreu em 1962, quando foi eleito deputado estadual. Em 1966, tornou-se suplente de deputado federal pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e, posteriormente, foi convocado para exercer o mandato.
O auge de sua carreira política foi alcançado em 1974. Com o apoio de Aluízio Alves, uma das grandes lideranças do MDB, Agenor Nunes Maria foi eleito senador da República para o mandato de 1975 a 1983. Durante seu tempo no parlamento, ele se destacou como um fervoroso defensor da agricultura e dos trabalhadores, além de demonstrar profunda preocupação com a situação econômica do país.
A Origem e a Nobreza do Sobrenome Nunes
O sobrenome Nunes, que o acompanhava, tem raízes antigas e distintas, originando-se do patronímico Nuno. Ao longo dos séculos, várias famílias com este nome se destacaram em diversas áreas de atuação, tanto em Portugal quanto em suas colônias, como a África, a Índia e o Brasil. Por seus méritos, muitos de seus membros receberam honrarias de soberanos portugueses, incluindo ordens de cavalaria e cartas de brasão.
Entre as figuras mais notáveis, destaca-se o grande cientista Pedro Nunes, matemático e cosmógrafo. Outros exemplos incluem os irmãos Diogo e Antão Nunes de Abreu, agraciados com Carta de Brasão por D. João III em 1535; Domingos Nunes de Oliveira, juiz em Covilhã, que recebeu a honraria em 1782; e o Capitão Manuel Pedro Nunes Ferreira, senhor da Quinta da Raínha, em Torres Novas, que a obteve em 1787.
Adicionalmente, a família Nunes Saldanha, detentora da casa da Terça em Mansores, foi agraciada com o título de Viscondes da Albergaria de Souto Redondo, o que evidencia a importância histórica e nobreza associada ao sobrenome.
Nas pesquisas efetuadas para o presente trabalho, não ficou definidamente esclarecido se o padre Fabrício de Porciúncula Gameiro, pró-pároco da freguesia do Seridó, era realmente gênito do casal em epígrafe ou apenas parente próximo de Maria José do Nascimento. Há informações de que pertencia à família Golão, a mesma Alves Alexandre, com vultosa descendência, inicialmente, no Seridó, Sabugi e Espinharas. Vêm alcançando notoriedade social vários membros da família, como Agenor Nunes de Maria, senador da República;
A historiografia do interior do Rio Grande do Norte revela-se, em sua essência, como uma descrição de sagas familiares que, ao longo do tempo, souberam transformar a aridez do espaço do sertão em território de prosperidade, mediante uma resiliência singular e contínua.
Em São Vicente, o desenvolvimento socioeconômico não resultou do acaso, mas do esforço consciente de clãs que conseguiram articular o trabalho rural à visão empreendedora e comercial.
A genealogia dessa estirpe encontra seu fundamento em Inácio Alves Gameiro, patriarca cujas raízes forneceram a base necessária para que seu neto, José Gameiro, consolidasse a presença e o prestígio familiar na região. Forjado na lida dos sertões, esse percurso estabeleceu o alicerce de uma transição decisiva que é a da subsistência tradicional para os empreendimentos pioneiros que passaram a definir tanto o espaço urbano quanto o cinturão rural vicentino.
No Seridó do início do século XX, a sobrevivência e a ascensão social exigiam versatilidade extrema. José Gameiro personificou essa estratégia ao transitar com pragmatismo por diferentes setores da economia local.
Sua trajetória urbana teve início em um ponto simbólico da vila, nas proximidades do poço da intendência, área que marcava a origem da então chamada “zona proibida” de São Vicente. Ali, antes de firmar-se como padeiro e instalar sua padaria, administrou um cabaré, revelando um espírito empreendedor despido de preconceitos morais, típico dos desbravadores sertanejos.
A passagem para a condição de proprietário rural ocorreu de modo estratégico e, não raro, pitoresco. Além de realizar permutas de madeira, extraída de antigos casarões do Cauaçu por terras com Joaquim das Virgens, José ampliou seu domínio adquirindo parcelas de herdeiros.
Um episódio emblemático da economia informal seridoense foi a negociação com uma herdeira idosa, que lhe cedeu suas terras em troca de “fumo para me fumar até morrer”, compromisso que José honrou até o falecimento da vendedora.
Do ponto de vista psicológico, José Gameiro sintetizava o arquétipo do patriarca seridoense. Austero, invariavelmente trajando o seu característico chapéu de massa, possuía religiosidade concreta e ativa, figurando entre os maiores doadores de material para a construção da igreja local.
Sua caridade era silenciosa e prática, permitindo que criadores de jumentos da vizinhança retirassem ração de suas terras sem qualquer ônus. Essa benevolência coexistia com rigor absoluto na defesa da propriedade e em um dos raros acessos de fúria registrados pela tradição oral, não hesitou em abater a tiros dois carneiros que invadiram suas terras, demarcando de forma violenta os limites de seu domínio.
A trajetória de José oferece um contraponto elucidativo ao destino de seu irmão Joaquim Gameiro, evidenciando como a administração do patrimônio foi decisiva para a permanência ou a ruína das elites rurais. Joaquim chegou a ser o maior expoente de riqueza da família, prosperando como comprador de algodão e acumulando cerca de três mil hectares de terra em Natal, na área onde hoje se localiza a superintendência da Polícia Federal.
Entretanto, vítima da volatilidade econômica, viu seu patrimônio se dissipar, falecendo em extrema penúria. José, por sua vez, optou por uma trajetória de estabilidade e diversificação moderada, embora menos afortunado no auge, assegurou a manutenção das terras como legado geográfico e preservou sua dignidade econômica até o fim da vida.
Nascido em 1888, Antônio Inácio de Maria, também conhecido como Inácio Maria, representou a maturidade econômica do clã. Em um contexto de infraestrutura rudimentar, exerceu funções essenciais ao sertão do Seridó, atuando como agricultor, almocreve e comerciante de animais, atividades vitais para o escoamento de mercadorias.
Sua reputação como trabalhador incansável construiu um patrimônio sólido e um capital social sustentado pela coragem necessária para enfrentar os riscos do comércio local. Sua união com Júlia Nunes de Maria consolidou genealogicamente a família, integrando os Alves do Sobradinho, os Alves Alexandre (Gameiro) e o grupo de Dona Senhorinha. Esse enlace não significou apenas soma de bens, mas a fusão de tradições que moldariam o caráter dos descendentes.
Se a figura paterna impunha disciplina e estrutura, o matriarcado de Júlia Nunes de Maria, conhecida como Madrinha Júlia, atuava como elemento de coesão social. Em um lugar marcado por desigualdades profundas, sua presença tornou-se referência moral. Madrinha de batismo de grande parte dos moradores da chamada “rua velha”, exercia uma caridade espontânea e despojada, nunca negando auxílio aos necessitados, mesmo em tempos de escassez.
A combinação entre a austeridade produtiva de Antônio Inácio e a compaixão de Júlia forjou o temperamento dos filhos, preparando o terreno para que a descedência alcançasse projeção política nacional.
Nascido em 1924, Agenor Nunes de Maria tornou-se o símbolo máximo dessa ascensão social e da resistência democrática no Rio Grande do Norte. Sua trajetória iniciou-se no trabalho braçal, como caminhoneiro, e no cooperativismo, experiências que lhe proporcionaram compreensão direta das demandas populares.
Ingressou na política pelo PSD e consolidou-se no MDB, destacando-se pela oposição firme ao regime instaurado em 1964. O ponto culminante de sua carreira foi a vitória histórica para o Senado da República, quando derrotou Djalma Aranha Marinho, um dos mais prestigiados juristas e políticos do estado, episódio frequentemente lembrado como um verdadeiro embate entre Davi e Golias da política potiguar.
Além do Senado, exerceu mandato de Deputado Federal e fortaleceu alianças familiares ao casar-se com Maria Araújo de Maria, filha de Pedro Pereira de Araújo e Eulália Pereira de Araújo. Seu êxito político permitiu o resgate das propriedades rurais da família, restituindo o esplendor às terras que seu avô José Gameiro lutara para preservar.
A relação dessa família com a terra em São Vicente desenvolveu-se em ciclos de posse, fragmentação e restauração. Em períodos de transição ou ausência familiar, as propriedades foram preservadas por moradores e parentes leais, como Severino Valentin e Bento de Medeiros, que atuaram como guardiões da integridade das terras até que Agenor reassumisse o controle.
Sob sua gestão, a fazenda viveu novo apogeu, tornando-se produtiva e admirada. Com o passar do tempo, porém, mudanças geracionais e transformações socioeconômicas conduziram a um novo declínio, encontrando-se hoje em ruínas, testemunho silencioso da efemeridade das glórias rurais diante da marcha do tempo.
A trajetória da família Gameiro e Maria, em São Vicente, constitui uma crônica de caráter, trabalho e superação. Do empreendedorismo de José Gameiro — do cabaré à padaria, do fumo à terra — à solidez de Antônio Inácio e à generosidade de Madrinha Júlia, emergiu em Agenor Nunes de Maria a expressão máxima de sua representação pública.
O legado dessa estirpe reside na síntese entre o labor do almocreve e a eloquência do senador, entre a austeridade do chapéu de massa e a solidariedade cotidiana com os desvalidos. Mais do que as ruínas das antigas fazendas, permanece a marca profunda deixada na identidade política e social de São Vicente, reafirmando que a verdadeira grandeza de uma linhagem se mede pela fidelidade às raízes e pelo impacto duradouro de suas ações na história de sua gente.
José Cortez Pereira de Araújo nasceu em Currais Novos, no coração do Seridó potiguar, em 17 de outubro de 1924, e faleceu em Natal, em 21 de fevereiro de 2004, deixando uma trajetória singular que se projeta para além da política stricto sensu, alcançando a reflexão intelectual, a ação pedagógica e uma concepção profundamente original de desenvolvimento regional. Filho de Vivaldo Pereira Araújo e de Olindina Cortez Pereira, formou-se inicialmente em Filosofia e, posteriormente, em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco, construindo uma base humanística sólida que marcaria, ad perpetuam rei memoriam, seu pensamento e sua atuação pública.
Desde cedo, sua vida esteve imersa em um ambiente familiar no qual a política se apresentava como extensão natural do compromisso social. Seu pai exerceu mandato parlamentar; sua irmã, Maria do Céu Pereira Fernandes, entrou para a história como a primeira deputada estadual eleita no Brasil, integrando a Assembleia Constituinte do Rio Grande do Norte entre 1935 e 1937; e outros parentes próximos também participaram da vida pública. Essa tradição, contudo, nunca foi vivida por Cortez Pereira como mero legado hereditário, mas como responsabilidade ética, fundada na ideia de que a política deveria servir ao bem comum e à superação das desigualdades estruturais do Nordeste.
A infância no sertão marcou-lhe indelevelmente o caráter. Ele próprio se descrevia como um menino introspectivo, quase melancólico, mais inclinado à observação do que à exuberância. Cresceu entre as paisagens áridas de Currais Novos, cercado pelos tabuleiros secos e pelas serras do Seridó, região que definia como uma das mais hostis do Nordeste em termos climáticos, mas paradoxalmente rica em engenhosidade humana. Duas experiências deixaram marcas profundas em sua formação: a Revolução de 1930, vivida ainda criança, quando presenciou o colapso súbito do poder político e o medo instalado no seio familiar, e as grandes secas, cujos flagelados, famintos e errantes, lhe causaram impressão duradoura. A visão do pai distribuindo alimentos aos necessitados sedimentou nele a convicção de que a miséria nordestina não era um destino natural, mas resultado de escolhas históricas equivocadas.
Movido por uma fé herdada do ambiente doméstico e pela influência de missionários carismáticos, ingressou ainda menino no convento dos Carmelitas, em Natal. Ali viveu anos de disciplina rigorosa, clausura e introspecção, submetendo-se às práticas ascéticas próprias da ordem, incluindo rituais penitenciais que lhe marcaram o espírito. Embora não tenha seguido a vida religiosa até o fim, esse período contribuiu decisivamente para a formação de sua disciplina intelectual, de sua sensibilidade ética e de uma visão quase contemplativa da realidade social, quae omnia postea in actionem conversa sunt.
De volta à vida civil, a política apresentou-se como caminho inevitável. Eleito primeiro suplente do senador Dinarte Mariz em 1962, então pela UDN, ingressou definitivamente no cenário político estadual e nacional. Posteriormente, com a reorganização partidária imposta pelo regime militar, filiou-se à ARENA e, em 1970, foi escolhido governador do Rio Grande do Norte pelo presidente Emílio Garrastazu Médici, tornando-se o primeiro governador “biônico” do Estado, em substituição ao então governador Monsenhor Walfredo Gurgel. Exerceu o mandato entre 1971 e 1975, período em que procurou imprimir uma marca pessoal à administração pública, fundada em planejamento, ousadia e visão de longo prazo.
Sua passagem pelo governo estadual coincidiu com o chamado “milagre econômico brasileiro”, mas sua leitura do desenvolvimento nordestino destoava da ortodoxia vigente. Cortez Pereira defendia, com veemência, que a pobreza da região não decorria da seca, da escassez de terras férteis ou do clima adverso, sed ex incongruentia inter naturam et actiones humanas. Para ele, o problema central residia na adoção de modelos agrícolas e econômicos incompatíveis com as condições ecológicas do Nordeste. O Seridó, em particular, era citado como prova empírica de sua tese: apesar da aridez extrema, das altas temperaturas, da luminosidade intensa e dos solos rasos, apresentava nível de vida superior ao de regiões mais férteis e chuvosas, justamente porque suas atividades tradicionais — a pecuária extensiva e o algodão mocó — harmonizavam-se com a natureza.
Essa visão o levou a formular uma doutrina própria de desenvolvimento, baseada no binômio algodão e boi, na agroindústria rural e na integração entre produção primária e beneficiamento local. Ele via, no Seridó antigo, um exemplo espontâneo e intuitivo de planejamento econômico, no qual descaroçadores de algodão e pequenas unidades produtivas instaladas nos sítios evitavam o êxodo rural e criavam uma economia equilibrada, ante litteram aquilo que os teóricos do Terceiro Mundo viriam a defender décadas depois. Para Cortez Pereira, o verdadeiro erro histórico foi a incapacidade do Estado brasileiro de preservar e aperfeiçoar essas práticas, substituindo-as por políticas de crédito e modelos produtivos importados de realidades completamente distintas.
No exercício do governo, procurou transformar essa visão em ação concreta, concebendo grandes projetos estruturantes, como a colonização da Serra do Mel e do Boqueirão, pensados como polos agroindustriais capazes de fixar o homem no campo com dignidade e autonomia. Defendia que o desenvolvimento não deveria gerar um êxodo rural desordenado, mas apenas um êxodo agrícola, no qual a mão de obra liberada pela modernização fosse absorvida por atividades industriais situadas no próprio meio rural. Acreditava, ademais, que o planejamento familiar era condição necessária para que os ganhos econômicos não fossem anulados pelo crescimento populacional descontrolado, enfrentando resistências políticas, religiosas e ideológicas com rara firmeza de convicção.
Paralelamente à ação administrativa, destacou-se como orador improvisador, capaz de discursos carregados de emoção, crítica social e profunda empatia com o povo nordestino. Sua palavra não era fruto de retórica vazia, mas expressão direta de experiências vividas, mágoas históricas e esperanças coletivas. Falava do Seridó, do Nordeste e do Brasil como quem fala de si mesmo, numa identificação quase orgânica entre biografia pessoal e destino regional.
Após deixar o governo, afastou-se deliberadamente da política partidária, recusando convites para disputar cargos mais elevados. Preferiu atuar como consultor e assessor, ajudando a recuperar empresas e atrair investimentos para o Estado, convencido de que servir ao Rio Grande do Norte não exigia, necessariamente, um mandato eletivo. Já no ocaso da vida, filiou-se ao Partido Trabalhista Brasileiro e foi eleito prefeito de Serra do Mel em 2000, realizando, aos 79 anos, o que considerava seu grande sonho político. Faleceu no exercício do mandato, após prolongada internação decorrente de pneumonia.
A trajetória de José Cortez Pereira de Araújo inscreve-se na história potiguar como a de um homem que soube unir pensamento e ação, intuição e método, tradição e inovação. Seu legado não se resume às obras materiais ou aos cargos que ocupou, mas reside sobretudo nas ideias que formulou e na coragem intelectual com que desafiou explicações fáceis para a pobreza nordestina. Em sua vida, o sertão deixou de ser apenas espaço de carência para afirmar-se como laboratório de soluções originais, demonstrando que, muitas vezes, non natura deficit, sed consilium.





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