sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

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 FÁBIO PIRES PRAXEDES (n. 1972) consolidou-se como um dos mais representativos comerciantes de Acari, no Rio Grande do Norte, ao longo de quase quatro décadas dedicadas ao varejo, trajetória que oferece um retrato fiel da superação de crises econômicas, da gestão prudente do crédito e da transformação do comércio local. Sua iniciação no setor ocorreu em 1986, ainda aos quinze anos de idade, na pequena bodega de seu tio Chicó, em um contexto marcado por práticas comerciais rudimentares e por um cenário macroeconômico de extrema instabilidade, agravado pela hiperinflação que assolava o país.

Naquele período, a logística era precária e artesanal: as entregas realizavam-se em bicicletas cargueiras ou carroças, enquanto produtos como açúcar, farinha e feijão eram vendidos a granel, exigindo pesagem e embalagem no próprio balcão. Não raro, o feijão precisava ser limpo manualmente, retirando-se pedras e impurezas antes da venda. Quando assumiu a condução do negócio, em 1990, em razão da enfermidade do tio, Fábio enfrentou de forma direta os efeitos devastadores da inflação mensal que alcançava índices entre 80% e 90%. A prática do fiado, essencial para aposentados e funcionários públicos, corroía rapidamente o capital de giro, pois o valor recebido ao final do mês já não bastava para recompor o estoque. Somavam-se a isso o tabelamento de preços e o consequente desabastecimento, uma vez que a indústria retinha mercadorias para evitar prejuízos. Diante desse quadro, em 1994, Fábio optou por uma decisão estratégica e dolorosa: fechar o estabelecimento, liquidar bens como geladeiras e balanças e saldar todas as dívidas com fornecedores e instituições financeiras, preservando seu nome e sua credibilidade no mercado.

Após o encerramento da mercearia, iniciou uma fase de comércio itinerante que revelou sua capacidade de adaptação. Passou a vender fitas cassete gravadas e roupas infantis, estas confeccionadas por sua esposa, em feiras livres de diversas cidades da região, como Cruzeta, Parelhas, Carnaúba dos Dantas, São Vicente e Florânia. Utilizava caronas em caminhões de feirantes e percorria longos trajetos a pé, carregando gravadores e caixas de som para atrair clientes em pontos estratégicos, como o Monte, em Carnaúba dos Dantas. O capital inicial para a retomada definitiva surgiu de um gesto simples e decisivo: a venda de uma televisão de vinte e nove polegadas ao irmão Gustavo, pelo valor de quinhentos reais, quantia que permitiu a compra do primeiro estoque de uma pequena bodega instalada em sua própria residência.

Desse recomeço nasceu o Mercadinho Pires, empreendimento que em 2025 completará trinta anos de funcionamento ininterrupto. Sua consolidação baseou-se na ruptura de paradigmas tradicionais do comércio de bairro, historicamente visto como mais caro que os estabelecimentos do centro. Fábio adotou preços competitivos, ofereceu descontos para pagamentos à vista e soube explorar a localização estratégica de sua casa, situada em via de intenso fluxo entre bairros. Durante mais de uma década, realizou pessoalmente as entregas, fortalecendo o relacionamento direto com a clientela e construindo uma rede de confiança baseada no contato cotidiano.

A gestão do crédito, longe de ser tratada como risco absoluto, tornou-se um instrumento de fidelização. O fiado foi concedido prioritariamente a clientes antigos, com histórico de convivência e pagamentos regulares ao longo de anos. Novos consumidores passavam por um período de observação, iniciando com compras à vista e limites reduzidos, antes da ampliação do crédito. A inadimplência, segundo sua experiência, manteve-se em níveis baixos e plenamente absorvíveis diante do lucro gerado pela lealdade de longo prazo.

A trajetória de Fábio insere-se em um contexto familiar marcado pelo empreendedorismo. Cada um dos irmãos trilhou caminhos próprios: Gustavo destacou-se na lanchonete e no setor imobiliário, sendo pioneiro em iniciativas criativas desde a infância; Marcelo voltou-se para eventos e construção, reconhecido pela economia e inventividade no reaproveitamento de materiais; Fabiano atuou no transporte e em investimentos imobiliários. Essa diversidade reforça a vocação comercial do núcleo familiar.

Sua história também é atravessada por um severo desafio de saúde. Diagnosticado com prolapso grave da válvula mitral, condição que se agravou ao longo de cinco anos, inclusive durante a pandemia de COVID-19, Fábio submeteu-se, em 2022, a uma cirurgia cardíaca de seis horas para a implantação de uma válvula biológica de origem suína. Complicações posteriores exigiram a colocação de um marca-passo. O afastamento de três meses do comércio representou um abalo psicológico significativo, dada sua identificação profunda com a rotina do balcão, mas serviu para consolidar a confiança na capacidade de gestão de sua esposa, que manteve o negócio em pleno funcionamento.

Ao longo dessa caminhada, Fábio Pires construiu uma filosofia de vida e de negócios ancorada na humildade, na memória das origens e no crescimento cauteloso. Para ele, o maior concorrente do comerciante é ele próprio; por isso, prefere avançar lentamente, com os pés no chão, a recorrer a empréstimos bancários que comprometem a tranquilidade e a autonomia. Sua trajetória demonstra que, no varejo local de Acari, o êxito não decorre apenas do capital financeiro, mas sobretudo da reputação, do crédito interpessoal e da compreensão profunda da psicologia do consumidor sertanejo.

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