quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

1922

  Silvino Bezerra Filho, nascido em 1922, conhecido em toda a região como o icônico Dr. Bezerra, ou simplesmente Bigodão, era filho de Silvino Adonias Bezerra (1891–1959) e de Maria Jesus Bezerra (1896–1964) e integrava uma linhagem profundamente enraizada na história social e política de Acari. Irmão de Paulo Balá e dos também lembrados Das Chagas, Cadocha, Gonzaga e Dr. Zezé, Bigodão cresceu em um ambiente marcado por fortes vínculos familiares, onde os sobrenomes, os compadrios e as veredas do sertão constituíam verdadeiros signos de pertencimento e identidade coletiva. Essa herança não apenas o situou no centro da vida comunitária acariense, como moldou um caráter no qual honra, lealdade e senso de justiça se apresentavam como valores inegociáveis.

Sua inscrição na história local deu-se de modo definitivo em 15 de novembro de 1968, quando venceu nas urnas o candidato popularmente conhecido como Cachimbão, pondo fim a uma hegemonia de décadas exercida pelo poderoso grupo econômico Nóbrega & Dantas. Aquele pleito não representou mera alternância administrativa, mas uma ruptura simbólica no modo de exercer o poder municipal, um verdadeiro turning point na cronologia política de Acari. O feito assume contornos ainda mais expressivos quando situado no cenário nacional da época, já sob a sombra do regime militar instaurado em 1964 e da vigência do Ato Institucional nº 1, que concedera aos comandos militares amplos poderes de cassação de mandatos e suspensão de direitos políticos, excluída qualquer apreciação judicial. Era um tempo de incerteza e temor, in quo pauci ousavam afrontar estruturas consolidadas, e, ainda assim, Bigodão emergiu como líder de integridade inabalável, fiel à palavra empenhada e capaz de enfrentar interesses arraigados sem recorrer ao ódio ou à desqualificação pessoal.

Sua atuação política refletia uma ética própria de uma geração sertaneja na qual a divergência ideológica não implicava inimizade pessoal. Mesmo oriundo de família politicamente adversária, o autor da memória que o celebra reconhece que Bigodão e seus opositores mantiveram relações de amizade, respeito mútuo e até compadrio, testemunhando uma cultura política fundada mais na honra do que na animosidade, more antiquo. Nesse contexto, a política local se fazia não apenas nos palanques, mas nas relações cotidianas, à sombra dos alpendres e no reconhecimento recíproco entre homens que se sabiam parte de uma mesma comunidade histórica.

Entretanto, se a vitória de 1968 o consagrou como protagonista da vida pública acariense, foi na dimensão humana que Bigodão consolidou seu legado mais duradouro. Homem educado, afável e de trato respeitoso, era apontado como representante da melhor estirpe seridoense, possuidor de um caráter no qual transbordavam bondade e solidariedade. Tinha defeitos, como todo ser humano, sed virtutes eius longe superabant vitia, a ponto de torná-lo inesquecível aos olhos de quem com ele conviveu. Sua caridade manifestava-se de forma discreta, quase silenciosa, guiada por uma compaixão que não distinguia aliados de adversários políticos.

Exemplo eloquente dessa postura ocorreu em 1984, quando auxiliou uma mulher humilde, conhecida por lhe fazer oposição, que atravessava dificuldades financeiras após o parto da filha solteira. Bigodão não apenas ofereceu ajuda imediata, como providenciou, junto a um compadre comerciante, a retirada semanal de alimentos durante todo o período de resguardo, insistindo para que a assistência fosse aceita sem constrangimento. Tal atitude não era exceção, mas expressão de um hábito reiterado, confirmado por seu filho Félix e por inúmeros relatos familiares, segundo os quais ele frequentemente saía de casa levando queijos, carnes e outros mantimentos para saciar a fome de quem o procurava. Essa inclinação natural para o amparo aos necessitados era atribuída, com justiça, à influência materna de dona Maria, de quem herdara a disposição para a caridade, quasi hereditario more.

A campanha eleitoral que o conduziu à vitória tornou-se, ela própria, um marco da cultura política seridoense. Disputada em ambiente de forte polarização partidária e retórica hostil, a candidatura de Bigodão foi alvo de tentativas de estigmatização do eleitorado humilde que o apoiava. Seu espaço de forró, situado em frente à igreja, foi pejorativamente chamado pelos adversários de “Chiqueiro do Doutor”. A resposta, porém, veio pela via da cultura popular: tocados pela injustiça, músicos parelhenses, entre eles Teixeirinha do Norte, compuseram a marchinha “O Baile do Chiqueiro”, que subverteu o insulto e o transformou em símbolo de orgulho coletivo. A música, incorporada à campanha, espalhou-se rapidamente e converteu-se em poderoso instrumento de mobilização, transmutando o bode — outrora metáfora depreciativa — em emblema de resistência, persistência e virilidade sertaneja.

Essa apropriação simbólica revelou como, naquele Seridó, a política se realizava tanto na praça e no forró quanto nos discursos formais. Versos, apelidos e alianças firmadas ao som da sanfona foram suficientes para decidir uma eleição, demonstrando que a grande política nacional sempre se traduz e se ajusta às gramáticas locais de parentesco, honra e territorialidade. A disputa entre Bigodão e Cachimbão, ambos ligados por laços familiares e por uma geografia comum de fazendas, sítios e cercas, foi menos um embate isolado do que a expressão de uma longa história de vínculos e tradições.

A dimensão emocional de sua presença pública alcançou contornos quase míticos. Narra-se que um ancião, ao assistir a uma passeata de Bigodão, emocionou-se profundamente ao ouvir a multidão cantar versos que exaltavam o “bom coração” do candidato e, tomado por súbita comoção, caiu fulminado por um infarto, após exclamar, admirado, “Oh, que coisa linda!”. O episódio, trágico e poético, ilustra a intensidade do vínculo afetivo que Bigodão estabeleceu com o povo, tornando-se não apenas um líder político, mas um símbolo vivo de uma época em que a confiança e a admiração populares se manifestavam de forma espontânea e visceral.

Assim, Silvino Bezerra Filho permanece na memória coletiva como algo muito além de um vencedor de eleições ou de um articulador político bem-sucedido. Ele encarna um modelo de liderança em que autoridade e humanidade caminham juntas, no qual a ação pública se ancora em valores éticos profundos e no respeito à dignidade alheia. Seu legado remete a um tempo em que a política local, mesmo atravessada por disputas intensas, era temperada por civilidade, solidariedade e senso de comunidade, valores hoje evocati cum desiderio. Recordá-lo é, portanto, mais do que prestar homenagem a um homem: é reafirmar a possibilidade de uma vida pública fundada na honra, na compaixão e no compromisso sincero com o bem comum.

 

 Ana Altiva Pereira de Araújo (1922-2006)  foi uma figura notável, cujo legado familiar se entrelaça com diversas ramificações, conforme detalhado nos registros genealógicos. A descendência de sua família se espalhou por diferentes localidades, unindo sobrenomes e histórias.

A linhagem de Laura Lemos de Medeiros, por exemplo, deu origem a uma vasta prole. Sua filha Miriam se casou com José Antonio Miller de Castro e teve José Alexandre e Claudia. Hespéria Chaves Medeiros, por sua vez, casou-se com Oswaldo Leite Vilela, gerando Marucia e Maria Laura. Outra filha, Tercia Magalhães Medeiros, nascida por volta de 1919, teve com Moacir Gomes de Freitas os filhos Evandro, Claudia e Sergio.

A família cresceu ainda mais com os filhos de Maria da Cruz Chaves Medeiros, nascida em 1921. Casada com Osmane Hipolito, teve Tereza Cristina, Ernane, Maria Elizabete e Petronio. Hilton Chaves Magalhães Medeiros, casado com Nizia Vidal de Souza, foi pai de Hilton, Laura e Luciana. Maria Julia Chaves Medeiros, que se uniu a José Vieira Brandão, gerou Raul Fernando, Francisco José, Marcia e Vanessa. Parnaso Magalhães Medeiros e Altair Lourdes Vilela tiveram Emerson, Henderson e Douglas. Já Castalia Chaves Medeiros, casada com Manoel Libanio da Silveira, foi mãe de Cezar Augusto, Maria Cristina, Raul José, Paulo e Matildes. Por fim, Neustria Chaves Medeiros e José Santos Ribeiro tiveram uma filha, Karia.

A árvore genealógica de Ana Altiva também se conecta à família de Eva Lemos de Medeiros, cujos filhos se casaram e perpetuaram a linhagem. Carlos Medeiros de Figueiredo teve um filho, Luiz, com Maria Tanano. Clovis Medeiros de Figueiredo e Dalia Jorge de Souza tiveram Antonio. José Rosa Figueiredo Neto, casado com Terezinha Medeiros, gerou Mucio e Maria Aparecida. Manoel Tiburcio Figueiredo e Gulnara Barbosa Machado foram pais de Manoel Mauro, Kenia Maria e Luis Geraldo.

A descendência se estende ainda mais a partir de Joaquim Carlos de Medeiros. Sua filha Carmem Silvia de Medeiros, casada com Mauro Lucio de Carvalho Ferreira, teve Renato, Ricardo, Raquel e Rosana. Carlos Antonio de Medeiros e Rosemary Baldini tiveram Carla Rose e Carlos Antonio Junior. Já Celeida Aparecida de Medeiros e Mario Neves de Castro foram pais de Matheus e Luciana. Por fim, Oneida de Medeiros Brasileiro, filha de Ordalia de Medeiros, casou-se com José Ferreira Lopes, dando continuidade a essa vasta e interligada história familiar.

 Em 17 de setembro de 1922, nasceu Justino Pereira de Araújo, no Sítio Bode, município de Caicó, filho de João Batista de Araújo e Salvina Francelina de Araújo. Criado em Cruzeta, ele conheceu Nelça Nerci de Araújo, com quem se casou e teve oito filhos.

Sua trajetória profissional começou como pescador e, posteriormente, marceneiro. Em 1945, trabalhou como carpinteiro para o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) no açude Itans, em Caicó. No entanto, sua vida profissional tomou um novo rumo em 9 de janeiro de 1946, quando, após pedir demissão do DNOCS, ingressou na Polícia Militar do Rio Grande do Norte.

Como praça mobilizada, serviu inicialmente em Cruzeta, onde permaneceu até 1948, pertencendo à Companhia de Caicó. Em seguida, foi transferido para a Companhia de Pau dos Ferros, onde ficou por apenas dois meses antes de retornar a Cruzeta, onde serviu até 1962. Naquele ano, foi transferido para Acari, cidade em que se aposentou em 1977, após 31 anos de serviço.

Após a aposentadoria, Justino Pereira de Araújo escolheu Acari para fixar residência. Conhecido por sua seriedade, sinceridade, inteligência e postura pacata, ele era um cidadão exemplar e um vizinho atencioso. Sua paixão por armas de fogo era notória, e sua meticulosidade com a manutenção delas lhe rendeu a reputação de mestre na cidade. Sua exigência e perfeccionismo, refletidos em seu cotidiano, evidenciavam a excelência do soldado que fora.

A narrativa pessoal do autor revela a admiração por Justino, recordando as visitas que, ainda criança, fazia à sua casa na Rua Major Hortêncio. Ele descreve a organização impecável do lar, o brilho do piso e o cuidado com as plantas, que adornavam o ambiente. A hospitalidade do casal, Nelça e Justino, era marcante. Enquanto Dona Nelça oferecia algo para comer, Justino, com paciência e orgulho, explicava o funcionamento de suas armas, transformando a curiosidade infantil em momentos de aprendizado.

Hoje, aos 83 anos, Justino exibe os sinais da idade, com a estatura um tanto arqueada, mas mantém os passos firmes. Caminha pela rua de mãos dadas com sua esposa, saudando a todos. A vida lhe concedeu a paz e a tranquilidade que ele sempre prezou. Sua história, marcada pela honestidade, amizade e bravura, torna-o uma figura de destaque na história de Acari.

P.S.: Em 20 de outubro [do ano da redação original], Justino, juntamente com Basto Soldado, foi homenageado com a placa de Honra ao Mérito da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, em uma cerimônia emocionante que celebrou sua dedicação e serviço. O evento, que contou com a presença de autoridades, familiares, estudantes e amigos, foi um merecido tributo à sua trajetória.


Dr.  PEDRO  PIRES DE MEDEIROS (1922 - 1975)

  filho de Mário Gonçalves de Medeiros e de Porphíria Eusébia Pires de Medeiros. Genitor de José Gentil Fernandes Medeiros e outros.

  Theodora Nalva Bezerra (1922-1995) personificou a força de uma mulher empreendedora, cuja trajetória foi indelevelmente marcada por uma busca incessante por autonomia. Nascida em 18 de abril de 1922, no Sítio Areia, em Currais Novos, sua vida foi um testemunho de resiliência, fé e um profundo desejo de autossuficiência, legado que ainda inspira aqueles que a conheceram.

    Sua formação começou no próprio sítio, com a professora Libânia Medeiros, e foi consolidada em 1940, quando se mudou para Recife. Durante cinco anos, estudou na Escola Doméstica do Patronato São Vicente de Paula, onde adquiriu vastos conhecimentos em artes domésticas, desde a culinária aos bordados. Ao retornar a Currais Novos, em 1945, atuou brevemente como professora de artes na Escola Capitão Mor Galvão. Contudo, seu espírito inquieto e sua aversão à dependência a impulsionaram para um novo caminho. Como afirma seu sobrinho e filho de criação, Flávio Bezerra, "ela não queria depender de ninguém", e foi essa convicção que a levou a fundar o Armarinho Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

    O armarinho não era apenas um negócio, mas a materialização de seu caráter. Iniciado no "beco de baiano" e passando por diferentes endereços até se fixar ao lado da Farmácia Chacon, o estabelecimento tornou-se um ponto de referência na cidade. Ali, Nalva oferecia uma vasta gama de produtos, desde aviamentos e perfumes até artigos inovadores para a época. Gracinha da Ótica, que a admirava desde criança, recorda que Nalva introduziu na cidade produtos como "shampoos, que não existia; nós lavávamos o nosso cabelo com sabonete". Para facilitar o acesso de seus clientes, adotou o sistema de "caderneta", uma prática comercial que demonstrava sua sensibilidade às necessidades das famílias locais.

    Sua capacidade de adaptação era notável. Nos períodos de menor movimento no armarinho, especialmente nas décadas de 60 e 70, Nalva diversificava sua fonte de renda produzindo salgados e bolos para vender, demonstrando uma proatividade exemplar. "Quando estava com alguma coisa que estava fraco financeiramente, ela fazia de alguma coisa para ter renda", relembra Flávio.

    Dois pilares sustentavam sua jornada: a fé e o valor da autonomia. Sua profunda devoção a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro não apenas deu nome ao seu negócio, mas também serviu como alicerce espiritual. Segundo Flávio, "ela era muito devota, por isso que ela colocou o nome da santa". O outro pilar, o de não "dar trabalho a ninguém", guiou suas ações até o fim. De forma trágica e reveladora de sua personalidade, Nalva escondeu um câncer de mama para não depender de cuidados. "Até para morrer, era como ela mesma dizia que não queria dar trabalho a ninguém", conta Flávio. A doença foi descoberta tardiamente, e ela faleceu em 19 de abril de 1995, apenas quarenta dias depois, e onze meses após a perda de seu irmão Geraldo, com quem era muito unida.

    O impacto de Theodora Nalva Bezerra transcende sua existência. Para Flávio, sua influência foi formativa: "eu sou o que sou por causa dela". Sua história também inspirou outras mulheres, como Gracinha da Ótica, que viu em Nalva um modelo para sua própria jornada empreendedora: "Eu me inspirei em Nalva Bezerra [...] desde menina que comecei a empreender". Sua memória permanece viva, não com tristeza, mas com a gratidão e a admiração por uma mulher que, com coragem e determinação, construiu seu próprio destino.

Nascido em Caicó, em 22 de maio de 1922, Deoclides de Brito Diniz integrou-se desde cedo à religiosidade e às tradições do Seridó. Filho dessa terra de fé e de povo perseverante, iniciou sua formação intelectual no Grupo Escolar Senador Guerra e, aos dezesseis anos, em 1938, ingressou no Seminário de São Pedro, em Natal, ao lado de jovens que, como ele, viriam a marcar a história eclesiástica da região: João Agripino Dantas, José Celestino Galvão e Firmino Araújo. Foram recebidos pelo então reitor, Cônego José Adelino, que treze anos depois assumiria o episcopado de Caicó. Ao adentrar o velho casarão da Campos Sales após longa viagem, Deoclides apresentou-se aos colegas com um sonoro e descontraído “Alô, trinca!”, episódio que, acolhido por risos e aplausos, rendeu-lhe o apelido de “Trinca”, pelo qual seria lembrado entre os companheiros.

Prosseguiu seus estudos no Seminário Imaculada Conceição, em João Pessoa, consolidando uma formação sólida que o conduziu ao sacerdócio. Sua ordenação ocorreu em 4 de dezembro de 1949, na Catedral de Sant’Ana, em Caicó, sob a imposição das mãos de Dom José de Medeiros Delgado, primeiro bispo da recém-criada Diocese de Caicó. Ainda nos primeiros anos de ministério, destacaria-se por celebrar a primeira missa vespertina realizada por um sacerdote potiguar, ocasião marcante ocorrida no canteiro de obras da Barragem de Oiticica.

O exercício pastoral do Padre Deoclides desenvolveu-se em diferentes comunidades do Seridó, revelando um sacerdote dedicado ao povo e atento às necessidades locais. Serviu como vigário em Serra Negra do Norte entre 1954 e 1957, em Cerro Corá de 1957 a 1959, e em Jucurutu entre 1959 e 1965 — cidade à qual voltaria posteriormente como pároco. Mais tarde, foi nomeado para a histórica Matriz de Nossa Senhora da Guia, em Acari, onde seu ministério adquiriu dimensão marcante, tanto pelo zelo litúrgico quanto pelas ações sociais e educativas. Por suas virtudes pastorais e por sua dedicação à Igreja, recebeu o título de cônego, distinção que reconhecia uma vida de serviço, simplicidade e fidelidade à missão sacerdotal.

A memória do Cônego Deoclides está repleta de episódios que sublinham seu caráter jovial, sua humildade e o modo estreito como vivia entre o povo. Amigo das famílias e presença constante nas residências paroquiais, em Jucurutu costumava brincar dizendo que sua casa não tinha fogão, pois suas refeições eram partilhadas diariamente com os paroquianos, numa escala organizada pelas zeladoras do Apostolado da Oração. Não fazia distinção entre ricos e pobres, entre letrados e simples: acolhia a todos com igual fraternidade. Era bom garfo, apreciador do trivial sertanejo, e nutria gosto especial por banhos de chuva e pelos mergulhos nas águas do Rio Piranhas. Nessas ocasiões, deixava escapar comentários espirituosos: “Deus podia converter parte dessa água em caldo de cana e das pedras em pão doce!”

O anedotário que se formou em torno de sua figura é vasto e expressa seu modo leve de interpretar a vida. Traduzia expressões populares para o francês e o latim, divertindo colegas e fiéis: dizia “dans le pomme de terre” para a popular “na batata”, e recorria ao jocoso “escafedetur damnatus” sempre que desejava manifestar desaprovação. Saudava todos com o habitual “bom dia, capitão”, expressão que se tornou emblemática de sua afetividade e espontaneidade. Mesmo diante das dificuldades, mantinha disposição alegre. Quando picado por uma serpente venenosa, precisou ser hospitalizado na maternidade de Cerro Corá, episódio que levou Monsenhor Paulo Herôncio, outro notório humorista clerical, a telegrafar a Dom Adelino: “Padre Deó na maternidade, passando bem.”

Em sua missão pastoral, empregava linguagem simples e objetiva, capaz de conquistar os fiéis pela clareza e ternura com que transmitia o Evangelho. Reorganizou escolas paroquiais, incentivou a educação popular e desempenhou papel ativo na implantação do Movimento de Educação de Base e das escolas radiofônicas no Seridó, restituindo a muitos o acesso ao saber. Na envergadura de sua simplicidade, vivia plenamente o ensinamento de Cristo: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração.”

A estima que despertava nas comunidades por onde passou pode ser percebida nas inúmeras homenagens que recebeu. Seu nome batiza ruas em Natal e em Carnaúba dos Dantas, além de um Centro Pastoral em Acari, construído por ele próprio. O Maestro Pinta, regente da Banda de Música Acariense, dedicou-lhe um dobrado, perpetuando sua lembrança no repertório cultural da cidade.

Faleceu em Currais Novos em 26 de março de 1997, aos 75 anos, enquanto exercia o paroquiato de Acari. Seu corpo foi trasladado e sepultado na cidade onde deixou algumas das marcas mais expressivas de seu ministério. No centenário de seu nascimento, celebrado no domingo anterior ao texto de homenagem original, a comunidade recordou o sacerdote que, durante décadas, tornou-se presença viva, pastoral e humana no Seridó, lembrando as palavras do Livro de Sirácida: “Façamos o elogio dos homens ilustres, nossos ancestrais” (Eclo 44,1). Assim é honrado o Cônego Deoclides de Brito Diniz — pastor dedicado, homem simples, amigo dos pobres e figura inesquecível para gerações de seridoenses.


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