Nascido em uma sexta-feira, 10 de março de 1939, no município de São Tomé, Afrânio Pereira de Araújo foi uma figura proeminente cuja vida se encerrou na mesma localidade, em 2 de junho de 2016. Sua trajetória está profundamente enraizada na região da Ribeira do Potengi, onde seus pais, Aurina Galvão Pereira de Araújo (1913-2004) e Dr. Rainel Pereira de Araújo (1903-1982), construíram sua história.
Afrânio, que se uniu em matrimônio a Maria Cacilda da Silva Pereira (1943-), era o irmão mais novo de Alzair Pereira de Araújo (1931-1995), Alzamir Pereira de Araújo (1933-1986), Alzenira Pereira de Araújo (1936-) e Rainel Pereira de Araújo Filho (1944-).
Sua genealogia, de grande relevância histórica na região, o conecta a importantes troncos familiares. Pela linha materna, era neto de Francisca de Vasconcelos Galvão (1876-1929) e de Ladislau Epaminondas de Vasconcelos Galvão (1874-1943). Essa descendência o coloca como bisneto do Coronel José Bezerra de Araújo Galvão (1843-1926) e de Antônia Bertina de Araújo Galvão (1856-1893), figuras de destaque da Fazenda Aba da Serra, no município de Currais Novos.
José Pires Dantas veio ao mundo às três horas da tarde do dia 1º de novembro de 1939, no Sítio Volta do Rio, município de Acari. Filho caçula de João Rafael Dantas e Joana Petronilla de Medeiros, era o sétimo de uma prole de sete irmãos. No seio familiar, era carinhosamente conhecido pelo apelido "Zinha", alcunha que o acompanhou na cidade de Acari, enquanto em outros círculos seria chamado de Pires ou José Pires ao longo de sua jornada acadêmica.
Sua infância foi moldada pelos labores rurais. Aos sete anos, Zinha já auxiliava sua mãe nas tarefas domésticas e no preparo das hortas. Aos dez, assumiu a responsabilidade de abastecer a residência com água, além de cuidar da vacaria e dos bezerros. Sua memória afetiva preserva até os nomes dos animais, que, por instinto, respondiam tanto ao chamado da mãe quanto do filhote. A rotina diária começava às quatro da manhã com o manejo do gado leiteiro. Parte da produção era destinada à fabricação de queijos por sua tia, Ana Febrônia de Araújo, o que exigia um deslocamento de duas léguas até o sítio dela.
O trabalho era árduo e incessante. Diariamente, transportava quatro cargas de água em barris de 15 litros cada e, após essa tarefa, ainda irrigava as hortaliças com baldes, garantindo uma farta produção de pimentão, cebola, coentro e até tomates de 500 gramas. As obrigações da manhã se encerravam por volta das 11 horas, antes do almoço, que consistia na dieta padrão da época: feijão macassar, arroz, carne e cuscuz.
A propriedade de 190 hectares, cortada pelo rio Acauã, era um exemplo de autossuficiência. Trinta por cento de sua área se estendia sobre a Serra do ‘Pai Pedro’, um inselberg granítico cujo cume abrigava planícies de vasta vegetação, ideais para o gado no período de inverno. José Pires frequentemente subia a serra com seu pai, que aproveitava o trajeto pela vereda para compartilhar histórias e saberes. No topo, João Raphael construiu uma casa e um tanque de pedra e cal em 1946, uma relíquia que ainda hoje resiste ao tempo.
Seu pai, embora com apenas quinze dias de instrução formal, era um homem de notável sabedoria, leitor assíduo da Bíblia e da literatura de cordel, e um profundo conhecedor da genealogia e história local. Sua memória prodigiosa era fonte de pesquisa para escritores e historiadores, que passavam semanas em sua companhia. A família vivia da produção de frutas, verduras, derivados do leite e da cultura do algodão mocó, o "Ouro Branco do Brasil", complementando a renda apenas com a compra de carne para não abater o próprio rebanho.
O Despertar para os Estudos e a Vida na Cidade
José Pires iniciou sua vida escolar aos cinco anos, na Escola Primária Bulhões, que funcionava em uma estação experimental de algodão. Sob a disciplina rigorosa de sua primeira professora, Dona Maria Francisca, aprendeu as primeiras letras e a tabuada. Em 1954, concluiu a quarta série, tendo como professora a própria irmã, Francisca Pires Dantas. Como a série seguinte não era ofertada na localidade, ele repetiu o ano para não interromper os estudos.
No ano seguinte, 1955, seu pai o enviou para a cidade de Acari a fim de dar continuidade à sua formação. Residiu na Rua da Matriz, em uma casa sem energia elétrica, e frequentou o Grupo Escolar Tomás de Araújo. Aos 14 anos, foi aprovado no exigente teste de admissão para o ginásio, destacando-se na redação. Por seu jeito caseiro e dedicado, um vizinho o apelidou pejorativamente de "brocoió", mas ele se manteve focado, sobressaindo-se em sua turma de 25 alunos.
Após a conclusão do curso, a falta de recursos para custear os estudos em Caicó indicava um retorno ao sítio. Foi então que Manoel José Fernando, conhecido como "Seu Bilé", interveio, sugerindo que Pires fosse matriculado no recém-criado curso normal ginasial e, ao mesmo tempo, trabalhasse na loja de seu pai, Antônio Bezerra Fernandes. Assim, José Pires passou a ter uma rotina dupla, trabalhando durante o dia e estudando à noite.
O Caminho da Agricultura: A Escola de Bananeiras
Aos 16 anos, com o curso normal concluído e a loja prestes a ser vendida, o futuro de José Pires parecia incerto. O destino, contudo, interveio através de um anúncio na difusora municipal: a Escola Agrotécnica Vidal de Negreiros, em Bananeiras, na Paraíba, estava com inscrições abertas. Impulsionado por Seu Bilé e acompanhado por um amigo, Filorgônio, Pires embarcou em uma jornada transformadora. A viagem de um dia inteiro em uma caminhonete por estradas precárias os levou da aridez do Seridó à paisagem verdejante do Brejo paraibano, um vislumbre que fortaleceu a determinação dos jovens.
Após uma noite em um hotel local, ambos prestaram o exame de admissão. Foram aprovados, mas ficaram em dependência na parte agrícola, matéria que cursaram e quitaram três meses depois. O maior desafio para José Pires foi a matemática, muito mais avançada que a aritmética do curso normal. Após uma nota baixa na primeira prova (2,7), ele se dedicou de forma obstinada. Antes de um exame crucial sobre fatoração, resolveu mais de 100 exercícios. Sua dedicação resultou em uma nota 10, surpreendendo o cético professor Orlando Nóbrega e seus colegas.
Com essa vitória, superou suas dificuldades, passou de ano e consolidou seu caminho na instituição. Ao concluir o segundo ano de Mestria Agrícola, já se preparava para o próximo desafio: o vestibular para o curso Técnico Agrícola, confiante em seu talento para o desenho técnico e certo de sua vocação para as ciências agrárias. A trajetória acadêmica de José Pires no curso de Agronomia foi marcada por superação. Embora tenha mantido um excelente desempenho ao longo da graduação, com média 7 em praticamente todo o seu currículo, ele enfrentou dificuldades iniciais em duas disciplinas que o levaram aos exames finais: Estatística e Extensão Rural. No caso de Estatística, a avaliação adversa não decorreu de falta de conhecimento, mas de uma suspeita infundada do professor, que duvidou da autoria de sua prova. Pires, contudo, recorda-se de ter cedido seu rascunho a um colega, Agamenon, que obteve a nota 9,5, evidenciando a injustiça da desconfiança. Já em Extensão Rural, a dificuldade residiu na complexidade do conteúdo apresentado pelo professor da matéria.
Após a formatura, sua carreira profissional teve início na Associação Nordestina de Crédito e Assistência Rural (ANCAR), posteriormente EMATER. Sua primeira designação foi em São José de Mipibu, onde permaneceu por três meses antes de ser transferido para Nova Cruz, local em que trabalhou por dois anos e meio.
Foi nesse período que sua trajetória sofreu uma reviravolta. Insatisfeito com irregularidades administrativas e financeiras que presenciava na EMATER, Pires começou a questionar seu futuro na instituição. O estopim foi um episódio de corrupção envolvendo um treinamento para parteiras que ele coordenou. Tendo despendido 90 BRL, foi-lhe apresentado um recibo no valor de 900 BRL para assinatura. Pressionado por seu superior regional, Leandro Severiano da Silva, sob a alegação de que o presidente, Dr. Fernando, "precisava do dinheiro", Pires sentiu seu senso de integridade ser frontalmente confrontado. Essa situação, somada à ostentação do referido presidente, fortaleceu sua decisão de buscar novos rumos.
A oportunidade surgiu com um convite para lecionar no curso de Agronomia em Areia, na Paraíba. O professor Zé Plácido de Andrade, ciente da aposentadoria do titular de Química Analítica e do talento de Pires — que já dava aulas preparatórias para o vestibular —, o incentivou a se candidatar à vaga de professor colaborador.
Sem hesitar, José Pires viajou para Areia, onde se apresentou ao diretor, Aderaldo Leocádio da Silva, e deu início ao processo seletivo. Após ser aprovado, manteve a notícia em segredo por dois meses até a formalização do contrato. Com a nomeação garantida, dirigiu-se a Natal no jipe da própria ANCAR e apresentou sua renúncia a Dr. Fernando, que, apesar da situação, reconheceu suas qualidades como um excelente extensionista.
A assinatura do contrato ocorreu na pró-reitoria em João Pessoa. Para celebrar o novo capítulo, Pires confraternizou com ex-colegas de turma em uma churrascaria local. No dia seguinte, assumiu suas funções em Areia, onde encontrou uma faculdade com certa desorganização e imediatamente começou a implementar melhorias.
Iniciou sua carreira docente em 12 de agosto de 1970, lecionando para uma turma de 60 alunos. Atuou como professor colaborador até 1972, afastando-se entre 1973 e 1974 para cursar sua pós-graduação em Piracicaba, São Paulo. Foi nesse período que um marco em sua vida pessoal se concretizou: em 5 de janeiro de 1974, casou-se com Maria Helena Lapenda Pires. Juntos, construíram uma família com quatro filhos e compartilham uma vida de paz e harmonia há 51 anos.
A árvore genealógica de Vicente remonta a figuras de destaque na administração provincial e na formação social do estado. Seu pai era bisneto de Manoel Lopes Pequeno (1794-1881) e de Anna Maria da Circuncisão (1795-1837), sendo esta última filha do Presidente da Província Thomaz Pereira de Araújo (1765-1847) e de Thereza de Jesus (1761-1848). Essa conexão com o ilustre antepassado não era apenas um dado histórico, mas uma marca de honra pessoal para Vicente.
Em sua vida adulta, Vicente uniu-se em matrimônio a Juraci Pereira de Medeiros, com quem constituiu família e teve três filhos: Jucinete Rúbia Medeiros de Araújo, Jucilene Sandra Medeiros de Araújo e Joatan Medeiros de Araújo. Mantendo viva a memória e o orgulho de sua ascendência, Vicente costumava evocar a firmeza e a credibilidade de seu bisavô nas ocasiões em que desejava selar um compromisso inquebrável, verberando a célebre frase: "Palavra de Tomaz de Araújo".


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