ANTÔNIO PIRES DE ALBUQUERQUE GALVÃO (1928/1998)
TEREZINHA PIRES GALVÃO. Filha de Eneas Pires Galvão e Joanna Leopoldina Pereira de Araújo. O conteúdo extraído da conversa informal no Sítio Acauã revela-se como um testemunho oral de forte densidade humana, no qual se entrelaçam reflexões sobre o envelhecimento, reminiscências familiares e relatos ligados à saúde pessoal e ao histórico médico doméstico. Embora espontânea em sua forma, a conversação expõe, com notável clareza, aspectos essenciais da experiência do tempo, da memória e da fragilidade humana, compondo um quadro narrativo que transita entre o íntimo e o coletivo.
A passagem dos anos surge como um dos eixos centrais do diálogo, sobretudo na medida em que um dos interlocutores se encontra às vésperas de completar seis décadas de vida. Nascido em 1965, ele se aproxima do aniversário de sessenta anos, a ocorrer no mês de agosto, e manifesta consciência serena do avanço da idade, contrastando essa postura com a dificuldade que muitas pessoas demonstram em aceitar a velhice como etapa natural da existência. No contexto familiar, essa percepção do tempo é ampliada pela referência ao irmão mais velho, Marco, nascido em 1964, estabelecendo uma linha cronológica que situa ambos dentro de uma mesma geração marcada por transformações sociais e familiares profundas.
A história da família ocupa lugar de destaque na conversa, surgindo não apenas como enumeração de fatos, mas como exercício de rememoração e reconstrução afetiva. O núcleo familiar imediato resume-se a dois filhos sobreviventes, o interlocutor principal e seu irmão Marco, precedidos, contudo, por uma série de gestações interrompidas, cujo número oscila entre seis e oito, revelando a presença silenciosa da perda na trajetória familiar. Entre essas gestações não levadas a termo, havia ao menos duas meninas, cuja menção evoca, ainda que de forma breve, vidas apenas pressentidas, integradas à memória doméstica como ausências permanentes.
A figura materna emerge com especial relevo, descrita como uma mulher instruída, cuja formação educacional foi concluída na cidade de Caicó. Ali, ela cursou o ginásio em uma instituição associada ao Sagrado Coração de Jesus, espaço que simboliza não apenas a educação formal, mas também a disciplina moral e cultural característica de seu tempo. Entre suas colegas de estudo figurava uma jovem conhecida como Natinha, cuja lembrança reforça o caráter concreto e pessoal dessas memórias, ancoradas em nomes, lugares e relações específicas.
A preservação da memória familiar manifesta-se de modo emblemático na referência a um antigo álbum de fotografias, guardado na casa do irmão. Esse álbum, descrito como velho e repleto de imagens antigas, constitui um verdadeiro arquivo visual da família, reunindo retratos de diversos parentes e, em especial, uma fotografia que congrega todos os irmãos. A decisão de visitar a casa do irmão para rever essas imagens envolve cuidados práticos e afetivos, incluindo a preocupação em evitar mal-entendidos com a cunhada, o que evidencia a delicadeza das relações familiares e a importância do respeito mútuo no convívio cotidiano.
O tema da saúde pessoal surge de forma concreta e detalhada quando um dos participantes relata ter se submetido recentemente a uma cirurgia ocular para correção de pterígio. O procedimento é descrito como simples e rápido, com duração inferior a dez minutos, embora a recuperação tenha exigido cautela. Apesar da recomendação médica de quinze dias de repouso antes do retorno às atividades laborais, o interlocutor optou por um período mais longo, de trinta dias, como medida de prudência. Esse cuidado contrasta com experiências anteriores, nas quais, mesmo enfrentando limitações físicas decorrentes de uma deficiência em uma das pernas, ele se submetera a esforços consideráveis durante processos de recuperação, chegando a carregar peso significativo poucas semanas após intervenções médicas.
Os efeitos da cirurgia ocular são descritos com riqueza sensorial. Antes do procedimento, a visão encontrava-se comprometida, turva e embaçada; após a cirurgia, o mundo passou a apresentar-se excessivamente claro, a ponto de causar desconforto inicial, revelando o impacto abrupto da restauração da capacidade visual. Esse relato pessoal é colocado em perspectiva quando comparado ao histórico de saúde do pai, portador de diabetes, condição que lhe acarretou sérios problemas de visão e o impediu de realizar procedimento semelhante. A mãe, por sua vez, não foi submetida a tal cirurgia, compondo, assim, um quadro familiar no qual diferentes trajetórias de saúde coexistem e se refletem umas nas outras.
A conversação é permeada, ainda, por referências ao cotidiano e às interações sociais que circundam a vida dos interlocutores. Menciona-se a visita de um parente ou conhecido chamado Enes, que veio de Minas Gerais acompanhado da esposa durante o período da tradicional festa de agosto, inserindo a narrativa no calendário cultural da região. Pequenas orientações práticas, como a recomendação de sair por uma porta específica para evitar uma descida perigosa ou o conselho de não andar com o olhar voltado para baixo, surgem de modo natural, revelando gestos de cuidado e preocupação mútua que caracterizam as relações próximas.
Assim, a conversa, embora informal em sua origem, constitui um rico testemunho de vivências compartilhadas, no qual o envelhecimento é refletido com lucidez, a história familiar é resgatada como patrimônio afetivo e a saúde aparece como dimensão central da experiência humana. Através dessas vozes, delineia-se um retrato sensível da passagem do tempo, da continuidade da memória e da persistência dos laços que sustentam a vida cotidiana.
VIVALDO PEREIRA DE ARAÚJO FILHO (1928 - 1973) Nasceu em Currais Novos/RN. Irmão de Milton Pereira de Araújo.
Terezinha Pereira Galvão, que viveu entre os anos de 1928 e 2002, era filha de Cipriano Pereira de Araújo e uniu-se em matrimônio a Geraldo Celestino Magela Galvão, circunstância que motivou a adoção do sobrenome Galvão. A sua linhagem familiar, profundamente enraizada na história local, destaca-se ainda pelo parentesco com seus tios Sérvula Escolástica Pereira de Araújo, Félix Pereira de Araújo, Sérvulo Leodegário Pereira de Araújo, Manoel Petronilo Pereira de Araújo e Agenor Pereira de Araújo. Carinhosamente conhecida como Teca, esta figura ímpar personificou sentimentos e atitudes de rara nobreza, despertando profunda admiração e estima naqueles que tiveram o privilégio de conhecê-la, sendo a humildade uma de suas virtudes cardeais. A despeito de possuir recursos financeiros que lhe facultariam desfrutar de regalias e privilégios, Teca rejeitava terminantemente a vaidade, nutrindo um amor genuíno pelas pessoas, sobretudo pelas gentes mais simples de sua cidade, Acari. Tal predileção pela simplicidade manifestava-se em hábitos cotidianos, como a preferência por viajar para Natal utilizando os ônibus de linha, muito embora dispusesse de motoristas e veículos particulares; buscava, assim, o anonimato e a vivência comunitária, comprazendo-se em estar entre o povo, ouvir suas narrativas e sentir-se igual aos demais, obliterando qualquer distinção de classe social. A sua residência mantinha-se perpetuamente de portas abertas, franqueada a qualquer cidadão acariense que, ciente da inexistência de barreiras sociais naquele lar, entrava sem constrangimento, encontrando ali um dom notável para o acolhimento — característica que, segundo relatos, constituía uma herança materna. A vida de Teca foi esculpida por diversos desafios, incluindo a perda precoce de sua mãe, todavia, ela transmutava o sofrimento pessoal em dedicação para mitigar a dor alheia. Além da humildade, a solidariedade era o sentimento motriz de sua existência, encarando o auxílio aos necessitados como uma verdadeira missão de vida. O seu labor incansável em prol dos idosos tornou-se inesquecível, a tal ponto que a história do abrigo de velhos de Acari confunde-se indelevelmente com a sua própria biografia; o local era, para ela, uma segunda casa, onde realizava visitas diárias, dialogava com os residentes e fiscalizava minuciosamente os detalhes para assegurar que nada lhes faltasse. Não raro, custeava as despesas da instituição com recursos próprios, agindo sempre com discrição, pois a ostentação da bondade não condizia com a sua personalidade avessa à vaidade. Teca revelava-se igualmente infatigável na busca por recursos, não hesitando em solicitar auxílio para o abrigo ou para a festa de Nossa Senhora da Guia, empenhando-se na venda de bolos, na realização de rifas e na organização de festividades, nas quais frequentemente assumia o posto na bilheteria, encontrando a felicidade na concretização dos benefícios para as instituições.
A política configurava outra de suas grandes paixões, e, embora jamais tenha exercido cargo eletivo, Teca era uma líder nata, havendo herdado o fervor cívico de seu pai, o ex-prefeito Cipriano Pereira. As suas opiniões possuíam peso decisivo, de modo que todas as deliberações relevantes do PMDB em Acari passavam, invariavelmente, por sua casa. Mulher de fibra e de fé inabalável, ela encarnava a caridade descrita na Epístola aos Coríntios: paciente, bondosa, isenta de inveja ou orgulho, capaz de tudo desculpar, crer, esperar e suportar. O seu passamento ocorreu em 2 de agosto, e, conforme rememorou Hudson, a festa de agosto daquele ano iniciou-se antecipadamente nas esferas celestiais, pois ela havia alcançado o trono dos justos, encontrando finalmente a paz e a liberdade que tanto almejara. Diante de tamanha magnitude humana, o texto original encerra-se com um apelo emocionado para que Acari faça justiça à memória de Teca, inscrevendo o seu nome na fachada do abrigo de velhos, gesto que garantiria a eternização de sua bondade e de sua história para as futuras gerações, clamando ainda às autoridades locais que prestem as devidas homenagens a outros nomes de igual grandeza.
TEREZA PIRES GALVÃO
RAIMUNDO PIRES GALVÃO (1928 - 1994)


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