quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

1920

 José Pires de Araújo (1920–2000) era filho de Leôncio Pires Galvão e de Maria Suzana de Araújo, sendo bisneto, pela linha paterna, do Major Antônio Pires de Albuquerque Galvão e de Guilhermina Francisca de Medeiros. Foi esposo de Crinauria Bezerra de Araújo. José pertencia a uma numerosa irmandade composta por Maria Suzana Galvão Pereira (1910–1938), Leôncio Pires Galvão (1912–1917), Sérvulo Pires de Albuquerque Galvão (1913–1914), Mônica Galvão (nascida em 1914), Joaquim Galvão (1916–1917), Josefa Galvão Diniz (1917–1971), Cypriana Suzana de Araújo (nascida em 1918), João Pires Galvão (1922–1999), Francisca Pires (nascida em 1923), Geraldo Pires Galvão (nascido em 1925), Hipólito Pires Galvão (1926–2004) e Rita Pires (nascida em 1927).



Dom Eugênio de Araújo Sales nasceu em 8 de novembro de 1920, na Fazenda Catuana, município de Acari, Rio Grande do Norte, filho de Celso Dantas Sales e Josefa de Araújo Sales, conhecida como Teca. Pelo lado materno, era neto de Leolina Sérvula de Araújo e de Manoel Ubaldo da Silva Neto; bisneto de Cândida das Mercês da Conceição e de Antônio Honorato de Araújo; trineto de Manoel de Araújo Pereira Filho, o “Manoelzinho da Fazenda Salgado”, e de Maria Leocádia de Medeiros. Pela linha paterna, era trineto de Félix de Araújo Pereira, o “Félix dos Garrotes”, e de Maria Suzana da Anunciação, irmã do Padre José Modesto Pereira de Britto, fundador do município de Granito, em Pernambuco. Batizado na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Guia, em Acari, cresceu em uma família de forte tradição católica, marcada pela atuação de sua bisavó Cândida das Mercês da Conceição como uma das fundadoras do Apostolado da Oração na cidade.

Iniciou os estudos em Natal, frequentando primeiramente uma escola particular e, em seguida, o Colégio Marista. Em 1931, ingressou no Seminário Menor e, posteriormente, cursou Filosofia e Teologia no Seminário da Prainha, em Fortaleza, Ceará, onde permaneceu até 1943. Foi ordenado sacerdote no dia 21 de novembro de 1943, festa de Nossa Senhora da Apresentação, padroeira da cidade de Natal, na então Catedral Metropolitana, pelas mãos de Dom Marcolino Esmeraldo de Sousa Dantas, bispo de Natal.

Sua ascensão na hierarquia eclesiástica foi rápida. Em 1º de junho de 1954, aos 33 anos, foi nomeado bispo auxiliar de Natal pelo Papa Pio XII e, em 15 de agosto do mesmo ano, recebeu a ordenação episcopal. Em 1962, assumiu como administrador apostólico da Arquidiocese de Natal, cargo que ocupou até 1965. No ano de 1964, foi transferido para a Arquidiocese de São Salvador da Bahia, também como administrador apostólico, e, em 29 de outubro de 1968, o Papa Paulo VI o nomeou Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil. No consistório de 28 de abril de 1969, foi elevado ao cardinalato, recebendo o título de cardeal-presbítero.

Em 13 de março de 1971, Dom Eugênio foi transferido para a Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, assumindo o cargo de arcebispo metropolitano, que exerceu por três décadas, até ter sua renúncia aceita pelo Papa João Paulo II em 25 de julho de 2001. Este, seu amigo pessoal, já havia lhe concedido um indulto para que permanecesse no posto até os 80 anos, cinco anos além da idade canônica de aposentadoria.

Durante sua trajetória, Dom Eugênio destacou-se tanto na esfera pastoral quanto na social. Em Salvador, foi um dos idealizadores das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e da Campanha da Fraternidade. No Rio de Janeiro, ordenou 169 sacerdotes — um recorde para arquidioceses e dioceses brasileiras — e foi um dos pioneiros na implantação do Diaconato Permanente. Sua firme defesa da ortodoxia católica levou-o a se posicionar contra a Teologia da Libertação e a chamada esquerda católica; contudo, foi no campo humanitário que realizou alguns de seus atos mais ousados. Entre 1976 e 1982, liderou uma rede de proteção que abrigou mais de quatro mil refugiados políticos de regimes militares da América Latina, garantindo-lhes segurança e asilo em países europeus. Chegou a enfrentar diretamente autoridades militares, como no episódio em que afirmou ao general Sílvio Frota ser o responsável pela proteção dos refugiados. Recusou-se, inclusive, a celebrar missa em comemoração ao aniversário do Ato Institucional nº 5 (AI-5).

Sua atuação social também incluiu a criação de centros de atendimento para portadores de HIV/AIDS, o fortalecimento da pastoral carcerária e a fundação de um núcleo de formação de lideranças na residência episcopal do Sumaré. No Vaticano, ocupou onze cargos em congregações, conselhos e comissões, um dos maiores números já alcançados por um brasileiro. Em agosto de 1990, foi agraciado com a Ordem do Mérito Militar no grau de Grande-Oficial.

Ao refletir sobre as desigualdades sociais, Dom Eugênio declarou em entrevista ao Jornal do Brasil, em 13 de agosto de 1994:

“O egoísmo dominante nos indivíduos e países impede uma justa distribuição dos recursos naturais. Cada um pensa em si e em sua nação, sem atender ao bem comum. Aqui se coloca o empobrecimento do Terceiro Mundo, em benefício dos mais ricos. E, no Brasil, a concentração de riquezas é crescente. Busca-se, em vez de justiça social, a diminuição dos que deveriam igualmente participar desses dons que Deus criou para todos os seus filhos.”

Dom Eugênio faleceu na noite de 9 de julho de 2012, aos 91 anos, vítima de infarto, em sua residência no bairro do Sumaré, no Rio de Janeiro, enquanto dormia. Recebeu o título de Cardeal Protopresbítero e era Arcebispo Emérito da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. Foi sepultado na Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro, onde sua memória permanece viva como exemplo de fé, coragem e dedicação à Igreja e ao povo brasileiro.


 

 

Filho de Aproniano Pereira de Araújo e Maria Augusta Pereira, Radir Pereira de Araújo nasceu em 5 de abril de 1920, em Currais Novos, no coração do Seridó potiguar, região que, há séculos, projeta no cenário político brasileiro nomes de forte presença e rara tenacidade. Pertencente a uma linhagem marcada pela atuação pública, Radir descende de figuras expressivas como o Presidente da Província Tomás de Araújo Pereira e o Deputado Tomaz Pereira de Araújo, personagens que, no século XIX, já inscreviam o nome da família entre as mais influentes da política nordestina. Essa tradição genealógica, tecida pela persistência sertaneja, encontrou nele continuidade e vigor.

Sua carreira teve início na vereança de Currais Novos, seguindo o caminho que seus antepassados abriram com sobriedade e firmeza. Em 1958, foi eleito Deputado Estadual pelo PTB, sendo sucessivamente reconduzido em 1962 e 1966. Durante três legislaturas, consolidou-se como uma das vozes mais atentas às demandas do interior e às complexidades políticas do Estado. Encerrado esse ciclo de doze anos na Assembleia Legislativa, voltou-se à disputa majoritária e, em 1982, foi eleito Vice-Governador do Rio Grande do Norte na chapa encabeçada por José Agripino Maia. Em 1985, alinhou-se à candidatura de Tancredo Neves, gesto que traduzia seu compromisso com a redemocratização. No ano seguinte, em 14 de maio de 1986, assumiu o Governo do Estado, após a desincompatibilização de Agripino, transmitindo o cargo, em 15 de março de 1987, ao seu sucessor, Geraldo Melo. Em 1994, manifestou apoio ao então Presidente Fernando Henrique Cardoso, reafirmando sua presença ativa no debate nacional.

A vida familiar de Radir também guardava as marcas de suas raízes. Foi casado com Aida Ramalho Pereira de Araújo, falecida em 1977, com quem teve quatro filhos, cuja descendência se estende por onze netos e quatro bisnetos, preservadores da memória doméstica e política de seu nome. Radir morreu em Natal, em 7 de junho de 2000, recebendo homenagens que traduziram seu prestígio: o velório contou com a presença do Presidente Fernando Henrique Cardoso, que decretou luto oficial de três dias em todo o país.

A trajetória desse seridoense insere-se na ampla contribuição de sua região à política potiguar. Há 188 anos, o Seridó já fornecia à província um de seus dirigentes máximos: o acariense Tomás de Araújo Pereira, figura central entre as famílias influentes que moldaram os rumos do Rio Grande do Norte no início do século XIX. Desde então, onze dos cinquenta e seis governadores do Estado nasceram no Seridó, revelando a força política de um território marcado pela austeridade, pela cultura do esforço e pelo sentido comunitário. Caicó desponta como a cidade que mais governadores deu ao Estado — José Augusto Bezerra de Medeiros, Antônio Fernandes Dantas, Monsenhor Walfredo Gurgel, Vivaldo Costa e, simbolicamente, Wilma de Faria, que adotou Caicó como sua terra afetiva. Serra Negra do Norte figura em segundo lugar, com Juvenal Lamartine, Dinarte Mariz e Quintino Clementino de Barros, este último ocupando o cargo por cinco dias em 1935. Currais Novos, terra natal de Radir, legou ao Estado dois governadores: José Cortez Pereira de Araújo, de quem a história costuma lembrar com admiração e polêmica, e o próprio Radir Pereira, que representou o município no governo durante o conturbado período de transição democrática.

Além da vida pública, Radir também se dedicou ao empreendedorismo, consolidando-se como empresário de destaque, particularmente com a expansão da rede de lojas “A Sertaneja”, símbolo de modernização comercial no interior potiguar. Seu nome, portanto, transita entre a política e o mundo dos negócios, em perfeita sintonia com a versatilidade própria das lideranças regionais que moldaram o século XX no Nordeste.

Um dos testemunhos mais marcantes sobre sua personalidade e sua inserção nos debates de seu tempo encontra-se no relato memorialístico “Uma noite, na casa de Radir Pereira”, de François Silvestre, publicado no Blog Carlos Santos. A narrativa resgata um episódio de 1978, em plena ditadura militar, quando a campanha para o Senado expunha tensões entre o MDB autêntico e os acordos celebrados pelo grupo hegemônico do partido, então conduzido pela Família Alves. Nesse contexto, Radir emergiu como candidato de resistência, apoiado por Odilon Ribeiro Coutinho e pelo grupo autêntico do MDB, em oposição ao “acordão” que favorecia Jessé Freire, o nome do regime.

O ambiente descrito por François Silvestre — a casa de Radir tomada por delegados, jornalistas, assessores, curiosos, puxa-sacos e espiões — revela a intensidade de um momento político que misturava euforia, vigilância e desconfiança. No centro da narrativa está o acalorado embate verbal entre o próprio François, Cortez Pereira e Odilon Ribeiro Coutinho, discussão que, entre ironias, acusações e farpas, desnuda contradições e ressentimentos acumulados desde os anos mais duros da repressão. François recorda sua prisão pelo DOPS em 1974 e acusa Cortez de ter servido à ditadura; Cortez rebate; Odilon intervém; todos, ao fim, acabam “enchiqueirados” numa mesa reservada, onde, entre história, filosofia e bebida farta, as tensões encontram algum desfecho momentâneo.

Esse episódio, repleto de densidade humana e política, revela o ambiente complexo que moldou a atuação de Radir Pereira, cuja casa, naquela noite, tornou-se palco de debates que ultrapassavam o destino eleitoral de um candidato e mergulhavam na própria crise moral que marcava o fim dos anos de exceção. Embora não tenha vencido a eleição para o Senado, Radir triunfou em Natal por quase quinze mil votos de maioria, enfrentando, sozinho, o poder combinado do governo federal, do governo estadual, da prefeitura da capital, das federações de indústria e comércio, e das tradicionais oligarquias Alves e Maia — uma vitória simbólica contra o sistema estabelecido.

A vida de Radir Pereira de Araújo, portanto, se inscreve entrelaçada às grandes forças que moldaram o Rio Grande do Norte no século XX: a tradição genealógica do Seridó, a política estadual em suas épocas mais turbulentas, o embate entre ditadura e redemocratização, o empreendedorismo do comércio interiorano e a memória cultural preservada em relatos que atravessam o tempo. Seu nome permanece como elo entre passado e presente, entre o sertão e o Estado, entre a história familiar e a história pública.



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