terça-feira, 2 de dezembro de 2025

1910

  Manoel José Fernandes, conhecido em toda a região pelo afetuoso apelido de Seu Bilé, nasceu em 3 de outubro de 1910, no município de Taperoá, no estado da Paraíba, e faleceu em 1993, deixando uma trajetória marcada pelo trabalho, pela honradez e pelo profundo enraizamento na vida social, econômica e política do Seridó. 

Era filho de Antônio Bezerra Fernandes e de Cândida Pereira de Araújo, irmão de Maria Elita, Letícia e Aristóteles, e neto, pelo ramo paterno, de Manoel José Fernandes e Maria Rosalina de Araújo, e, pelo ramo materno, de Antônio Pereira de Araújo e Francisca Pereira de Araújo, integrando, assim, um complexo tecido genealógico que o vinculava a antigas e influentes famílias da região.

A origem do tronco familiar Fernandes remonta à região do Douro, em Portugal, de onde procedeu para o Brasil no início do século XVIII. Entre seus ancestrais destaca-se o Major Cosme Damião Fernandes, neto de judeus sefarditas, que se estabeleceu no Seridó norte-rio-grandense e contraiu matrimônio com Izabel Maria de Araújo, união da qual nasceram oito filhos. Pesquisas genealógicas contemporâneas demonstram que os descendentes desse casal conservam uma ligação direta com a matriz judaica, fato que acrescenta densidade histórica e cultural à linhagem. Foi nesse contexto familiar, impregnado de memória, mobilidade e adaptação, que se formou a personalidade de Manoel José Fernandes.

O apelido “Bilé” nasceu ainda na infância, de modo espontâneo e afetivo, quando sua irmã mais velha, Maria Elita, nascida em 1909, referia-se a ele como “bebê Bié”, expressão infantil que, com o tempo, cristalizou-se como a designação pela qual seria amplamente conhecido e estimado na comunidade. Seu nascimento em solo paraibano deveu-se a circunstâncias políticas que afetaram a vida profissional de seu pai, então Fiscal de Consumo do Estado do Rio Grande do Norte, o qual, compelido a pedir demissão por razões de ordem política, transferiu-se com a família para Taperoá, onde buscou reerguer-se mediante o trabalho honesto.

Nessa cidade, Antônio Bezerra associou-se ao primo Francisco Bezerra de Araújo Galvão, proprietário de uma casa comercial de tecidos, inaugurando um período de labor intenso e de reconstrução da estabilidade doméstica. Em 1914, a família regressou ao Rio Grande do Norte e fixou-se em Jardim do Seridó, terra natal de Antônio Bezerra, onde este passou a dedicar-se à agricultura na Fazenda Touro, pertencente à matriarca Maria Rozalina de Araújo Fernandes, sua mãe e irmã do coronel Silvino Bezerra de Araújo. A propriedade situava-se nas proximidades da sede municipal e funcionou como importante eixo de sustentação familiar.

Em 1919, quando Bilé contava apenas nove anos de idade, a família transferiu-se definitivamente para Acari, estabelecendo-se na Fazenda Acauã, pertencente a Félix Eufrásio de Araújo, genealogista e memorialista de reconhecida relevância, irmão de dona Cândida. Nesse mesmo ano, teve início a construção da rodagem ligando a região a Natal, ocasião em que Antônio Bezerra vislumbrou nova oportunidade econômica, erguendo um barracão destinado à venda de gêneros alimentícios, empreendimento que lhe proporcionou expressivos lucros e contribuiu para a recuperação financeira da família.

Em 1920, os pais de Bilé adquiriram uma loja de tecidos em Acari, anteriormente pertencente a Raul Pontes. Ainda menino, com apenas dez anos, ele já auxiliava ativamente nos negócios. Em 1924, a loja foi vendida e substituída por um estabelecimento de maior porte, de propriedade de Antônio Basílio, então prefeito municipal. Localizado à Praça Coronel Silvino Bezerra, nº 46, o novo comércio passou a ser administrado diretamente por Bilé, que contava apenas quatorze anos de idade, revelando desde cedo notável senso de responsabilidade e vocação para o trato mercantil. Permaneceu à frente desse empreendimento até 1965, quando cedeu o ponto ao comerciante Onessino Onésio da Silva, figura de relevo na vida econômica e política local, que viria a ocupar a vice-prefeitura de Acari entre 1977 e 1982.

Sua formação escolar iniciou-se no Grupo Escolar Tomaz de Araújo, onde concluiu o curso primário, correspondente ao atual ensino fundamental, prosseguindo os estudos no Externato Spencer, instituição de prestígio dirigida pelo doutor Francisco Menezes, promotor da comarca e educador respeitado. Em 14 de novembro de 1934, contraiu matrimônio com Maria do Carmo Galvão, filha de Francisco Braz de Albuquerque Galvão e de Izabel Bezerra de Araújo, união da qual nasceu sua única filha biológica, Maria Izabel Fernandes de Medeiros, falecida em 2024. O casal, contudo, acolheu e criou outras crianças da parentela, num gesto que evidencia o forte espírito familiar e solidário que marcou sua vida.

Maria Izabel casou-se com o engenheiro agrônomo Pedro Pires Gonçalves de Medeiros, chefe da Estação Experimental de Cruzeta, e desse enlace nasceram nove filhos, perpetuando a linhagem e ampliando os vínculos familiares no Seridó. A vida pública de Bilé ganhou relevo em 1º de dezembro de 1944, quando foi nomeado prefeito de Acari durante o governo do interventor general Fernandes Dantas. Sua gestão distinguiu-se pelo cuidado com a educação, pela conservação das estradas e dos prédios públicos e pela atenção dedicada à limpeza urbana, imprimindo à administração um caráter de zelo e proximidade com a população. Ao término do período interventorial, apresentou espontaneamente seu pedido de exoneração, em gesto de solidariedade política, sendo sucedido por Sérvulo Pereira de Araújo, em 1948.

Em 1954, voltou a ocupar posição de destaque ao figurar como vice-prefeito na gestão do médico Paulo Pires Gonçalves de Medeiros, acumulando simultaneamente a presidência da Câmara Municipal. Foi nesse período que se deram as emancipações dos municípios de Cruzeta e Carnaúba dos Dantas, eventos que marcaram a reorganização político-administrativa da região. Em 26 de outubro de 1958, representou oficialmente o prefeito de Acari na inauguração do Açude Público Marechal Dutra, o Gargalheiras, ocasião simbólica em que se ofereceu churrasco de confraternização aos operários da obra, executada sob a direção do Exército Brasileiro e supervisão do major engenheiro Ari de Pinho.

Encerrada a fase mais intensa da vida pública, Bilé afastou-se das disputas eleitorais e passou a dedicar-se integralmente às atividades rurais e à pecuária, tornando-se proprietário das fazendas Riacho da Serra, Tigre e Benedito, esta última doada à filha Maria Izabel. Durante muitos anos, exerceu ainda a função de correspondente do Banco do Brasil em Acari e integrou, desde sua fundação em 17 de janeiro de 1971, a Loja Maçônica Fraternidade e Justiça III, sendo reconhecido como um de seus membros mais respeitados.

Homem de espírito comunitário e vida ativa, participou intensamente do cenário social, cultural e esportivo do município. Foi atleta do Sport Club Acaryense, fundado em 1934, atuando ao lado de nomes expressivos do esporte local, e engajou-se em atividades escoteiras, oratórios e iniciativas de cunho social e religioso. Teve presença constante nas festividades de Nossa Senhora da Guia, padroeira de Acari, e em celebrações que estruturavam a vida cultural e espiritual da cidade. Em seu segundo convívio marital, com Maria Martha de Araújo, teve três filhos, Fernando, Marcos e Farah Indira, ampliando ainda mais sua descendência.

Manoel José Fernandes encerrou sua existência deixando um legado de trabalho perseverante, retidão moral e dedicação à família e à terra seridoense. Sua memória permanece viva no imaginário acariense como a de um comerciante empreendedor, gestor público íntegro e cidadão exemplar, cuja trajetória ilustra, de modo eloquente, a força das tradições familiares aliadas ao compromisso com o bem comum, ad perpetuam rei memoriam.

  





os confins do sertão potiguar, sob a luz inclemente e inspiradora do Seridó, nasceu em 17 de março de 1910, no povoado de Saco de Luíza, encravado no município de Flores — a atual Florânia —, José Adelino Dantas, rebento da união entre Antônio Adelino Dantas e Jovelina de Oliveira Dantas. Descendente da tradicional estirpe dos Azevedos-Dantas, que desde o século XVIII desbravava aquelas terras bravias, o menino conheceu cedo a dor da orfandade, perdendo o pai em 1915, tragédia que impeliu a viúva e sua numerosa prole a buscar refúgio e sustento no Sítio Cabaço, em São Paulo do Potengi. Foi ali, entre a lida agrícola e a convivência fraterna, que José Adelino desabrochou para as primeiras letras e para a música, integrando, ainda menino, a Filarmônica 22 de Setembro, prenúncio da sensibilidade artística que permearia toda a sua existência.

O ano de 1925 marcou a encruzilhada definitiva de seu destino, quando a visita pastoral de Dom José Pereira Alves àquela paróquia propiciou o encontro providencial entre o prelado e a matriarca Jovelina; diante do convite episcopal para o sacerdócio e da generosa oferta de custeio, o jovem despediu-se do lar para ingressar no Seminário de São Pedro, em Natal. Sua jornada de formação, pontuada por uma breve passagem pelo Seminário da Paraíba, culminou em uma ascensão virtuosa às ordens sagradas, recebendo a tonsura, as ordens menores e o diaconato, até que, em 18 de novembro de 1934, na Capela do Santuário do Tirol, foi ungido presbítero, celebrando sua primeira missa solene na então Vila do Acari, hoje Carnaúba dos Dantas, solo sagrado de seus ancestrais.

A carreira eclesiástica de Padre José Adelino foi meteórica e brilhante, marcada pelo zelo pastoral como vigário em Santo Antônio do Salto da Onça e pela competência administrativa ao assumir, em 1935, a Reitoria do Seminário de São Pedro, sucedendo ao notável Monsenhor Walfredo Gurgel. Sua erudição e piedade valeram-lhe o reconhecimento da Santa Sé e da hierarquia local, sendo agraciado com os títulos de Cônego e Monsenhor, até que, em 1952, a voz de Roma o convocou ao episcopado. Sagrado bispo em cerimônia solene na Catedral de Natal, assumiu a Diocese de Caicó, tornando-se o primeiro filho do Seridó a pastorear aquele rebanho diocesano, empreendendo uma gestão memorável antes de levar seu báculo pastoral às terras de Garanhuns, em Pernambuco, e posteriormente à Diocese de Rui Barbosa, na Bahia.

Todavia, o chamado da terra natal jamais silenciou em seu peito, e em 1975, com a saúde fragilizada e a renúncia aceita pelo Papa Paulo VI, Dom José Adelino encerrou seu périplo missionário para retornar às origens. Fixou residência em Carnaúba dos Dantas, à sombra do Monte do Galo, onde viveu um crepúsculo fecundo, dividindo seu tempo entre a oração, o magistério superior e a pesquisa histórica. Poliglota, dominando com maestria o latim, o grego, o francês e o italiano, dedicou-se a resgatar a memória de seu povo em obras seminais como "Homens e Fatos do Seridó Antigo", além de cultivar uma nobre amizade com o compositor Felinto Lúcio Dantas, com quem partilhava o amor pela música e pela genealogia sertaneja. Em março de 1983, após sofrer uma trombose cerebral, o "Bispo de Letras" partiu para a eternidade, deixando vago seu assento na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras e no Instituto Histórico e Geográfico, mas legando à posteridade o exemplo imperecível de um homem que soube, com igual grandeza, servir a Deus e honrar a história de sua gente.

Maria do Céu Pereira de Araújo (1910-2001) nasceu em Currais Novos, Rio Grande do Norte, filha de Vivaldo Pereira de Araújo e Olindina Cortez. Casou-se com o deputado federal Aristófanes Fernandes, com quem teve, entre outros filhos, Paulo de Tarso Fernandes. Sua vida foi marcada pelo pioneirismo e pela defesa da democracia em tempos turbulentos.

Em um feito histórico, Maria do Céu tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de deputada na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, sendo também a primeira deputada estadual do Brasil. Eleita com expressivos 12.058 votos, seu mandato foi abruptamente interrompido. Em 1937, ela teve seu mandato cassado por se opor às ideias totalitárias e ditatoriais do Estado Novo, comandado por Getúlio Vargas.

Ela também era irmã do Dr. José Cortez Pereira de Araújo, que viria a se tornar governador do Rio Grande do Norte, exercendo o cargo entre 1971 e 1975. A coragem e a integridade de Maria do Céu Pereira de Araújo são um testemunho de sua luta por ideais democráticos, deixando um legado inestimável para a história política do Brasil.

       EMÍLIA LOPES GALVÃO (1910 - 1978) contraiu primeira nupcias com Arão Pires Galvão, filho de João Alfredo Pires de Albuquerque Galvão (Joca Pires, prefeito de Currais Novos/RN). 

JOÃO BATISTA FONTES GALVÃO  (1910 - 1975)  Filho do Coronel Olintho Lopes Galvão (1864 - 1930) e de Cândida de Miranda Fontes (1876 - 1957). Sobrinho de Romualdo Galvão. Esposo de Maria Amália da Nóbrega Santa Rosa (1905 - 1999) que era filha de Cipryano Bezerra Galvão Santa Rosa (1857 - 1947) e de Maria Iluminatta da Nóbrega (1877 - 1917). Genitor de Cipryano Olyntho Santa Rosa Galvão (1930 - 1994); Dalila Santa Rosa Galvão (1932 - 2023); João Batista Galvão Filho; Mariana Santa Rosa Galvão (1934 - 2021). 

BENTO MANOEL DE MEDEIROS (1910/ Nascido em Acari, Bento Manoel de Medeiros teve uma trajetória de vida dedicada à segurança pública do Rio Grande do Norte. Filho de pai assassinado em 1926, ele ingressou na Polícia Militar em 1931. Sua carreira, marcada por um notável senso de justiça e eficiência, o levou a se destacar em diversos cargos de liderança.

Conhecido como Coronel Bento, ele exerceu a função de delegado de polícia em municípios estratégicos como Lajes, Pau dos Ferros, Goianinha, Pedro Velho e Currais Novos. Em 1956, já no posto de capitão, acumulou a responsabilidade de delegado de polícia militar e delegado regional em Patu, com jurisdição sobre 13 municípios da região Oeste Potiguar.

Sua ascensão continuou nos anos seguintes, onde sua competência o tornou uma figura indispensável na estrutura da segurança do estado. Ele foi Delegado da Ordem Social durante a administração do governador Aluízio Alves (1960-1964) e Chefe da Polinter (1969), na gestão do Monsenhor Walfredo Gurgel. Posteriormente, exerceu o cargo de Diretor do Departamento da Polícia Civil de 1969 a 1987, servindo sob os governos de Walfredo Gurgel, Cortez Pereira, Tarcísio Maia, Lavoisier Maia, José Agripino Maia e Radir Pereira.

Seu legado na segurança do Rio Grande do Norte foi perpetuado pelo Decreto nº 12.837, de 7 de dezembro de 1995, que instituiu a Medalha de Mérito Profissional Coronel PM Bento Manoel de Medeiros. A honraria é concedida a membros das polícias militar e civil do estado que se destacam por seu desempenho eficiente e exemplar, mantendo viva a memória e a contribuição de um dos mais notáveis líderes da segurança pública potiguar. Bento Manoel de Medeiros foi pai do renomado delegado Maurílio Pinto de Medeiros, que seguiu seus passos na defesa da ordem e da justiça.



Salatiel Costa nasceu no Seridozinho, em 1910. Estudou no Colégio Pedro II, em Natal, sendo, à época, considerado o melhor atleta do educandário. Durante a seca de 1932, em uma retirada, encontrava-se na fazenda de um membro da família Fernandes quando faleceu em decorrência de febre tifóide, tendo sido assistido pelo médico Dr. Maltez Fernandes. Foi sepultado no cemitério público de Caraúbas e, segundo Milton Gurgel, deixou naquele local um filho, de nome Nelson.

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